terça-feira, 24 de abril de 2018


O OUTRO LADO DE BRASÍLIA


Imagine
Você poder apanhar
Uma manga, ou
Uma goiaba, jaca, abacate, laranja,
Todas pertencendo
A todos. Você apanha
E vai descascando e
Comendo sem pagar nada!
Imagine um condomínio
Onde as horas comunitárias
São para todos, para qualquer
Um chegar, fofar a terra
Apanhar um tempero
Tudo de graça.
Imagine
Uma quadra
Onde o vendedor de jornais
Organiza um chorinho
Reunindo pessoas idosas, adolescentes
E crianças. Fazem roda e
Tocam todos os sábados
Imagine
Um lugar
Banhado
Pelo sol dos
Trópicos.
Ruas planas
Sem altos e baixos
Gente fazendo
Caminhada
Indo e vindo
 E cumprimentando
Quem chega
“Bom dia” ou “boa tarde”
Soa bem aos ouvidos.
Passam idosos de bengala,
Cadeirantes, crianças correndo,
Criancinhas no colo.
Parecem felizes...
“Vim do Rio, de Copacabana”
nos diz o dono da banca, Carlos Valença.
“mudei para Brasília, resolvi
Imaginar este evento dos sábados.”
Pois este lugar prazeroso,
Cheio de luz, é Brasília, capital
 Do Brasil.
“Trouxemos a Roda de Choro
Do Parque da Cidade para a banca Copacabana.”
Brasília não é somente política,
Políticos, decisões judiciais, lugar de conflitos...
Brasília está banhada de luz,
Foi abençoada por dom Bosco, criada por um presidente vindo de Minas Gerais, com coragem e idealismo.
Juscelino Kubitscheck era alegre, dançava, gostava de arte, incentivava os artistas.
Sentada num banquinho na barraca de jornal, eu fui me lembrando da história de Brasília, muito ligada ao construtivismo que se propagou pelo Brasil na época.
Juscelino quando criou Brasília realizou um sonho, acho que realmente ele foi o melhor presidente que tivemos.
Hoje, estamos aqui sentados, ouvindo música, jovens, idosos, crianças, até recém-nascidos estão participando. Chegou um rapaz com uma gaita e entrou na música.  Outros, como eu, sentamos em banquinhos e tomamos água de coco. Este é o outro lado de Brasília que pudemos apreciar numa manhã de sol. Hoje Brasília completa 58 anos. Parabéns!

*Fotos de Maurício Andrés

VISITE TAMBÉM MEUOUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.




segunda-feira, 16 de abril de 2018


DANDO NOME ÀS VACAS


Gostaria de apresentar o texto abaixo sobre a vida rural, de autoria de  Manuel Rolim Andrés..

No princípio era o berro. Muuuuuuuuu, mugiu Saudade ao ser tocada do curral onde passara os mais gloriosos anos de sua vida. O período era o comecinho do século XX. O lugar era o interior de Minas Gerais. E o sujeito era uma família que estava de mudança de uma fazenda para outra, a algumas léguas dali. Todo o patrimônio estava sendo levado. No caso, três vacas: Saudade, Lembrança e Souvenir. Esta última, ainda um testemunho de uma época em que a grande referência cultural do mundo era a França, e não os Estados Unidos.
A menina mais nova, numa epifania causada talvez pela saudade do antigo lar, percebeu: “mas o nome das três vacas significa a mesma coisa”.
“É que é importante lembrar, minha filha.”

Esta história aconteceu com a avó da minha esposa muito tempo atrás. Hoje, quando a principal regra de alimentação é “não coma nada que sua avó não reconhecesse como comida”, talvez aquelas vacas tenham algo a nos ensinar.

Porque se a avó da minha esposa chegou a conhecer o leite de saquinho e depois o longa vida, provavelmente ela nunca colocou os olhos em uma grande fazenda produtora de leite. Vacas espremidas em cochos, comendo ração transgênica, sem espaço para vaquear por aí. São ruminantes, ora. Os muito literais que me perdoem, mas ruminar é muito mais do um tipo de digestão do alimento. Ruminar também é refletir, meditar, cogitar. Tudo o que é negado à vaca no seu quarto-e-sala sem área privativa. Outra coisa que a avó dessa história também nunca viu, foi uma vaca ser chamada por um número. É como se você fosse reconhecido na rua pelo seu CPF.

-         12345678? É você?
-         87654321? Quanto tempo, que saudade.

Aqui, no Dahorta, cada vaca tem seu nome. Meia Lua, Estrela, Maravilha… Alguns desses nomes foram escolhidos por nossos netinhos. Dar nome às vacas é um símbolo de como toda produção deveria ser. O alimento que vem da vaca vai pra dentro de nós. Se ela for tratada como uma mera engrenagem industrial, é impossível que o leite não seja também um mero produto industrial. É fundamental estabelecer uma relação de proximidade com o animal. Vacas criadas a pasto, chamadas pelo nome, sem antibióticos preventivos (onde já se viu, tomar antibiótico sem estar doente?), tratadas com homeopatia. A quantidade de leite que cada vaca dá é muito menor do que em uma fazenda de confinamento. Em compensação, o leite que elas dão, e o iogurte e o queijo que a gente faz a partir dele, não dá pra comparar. Depois de provar, você vai ficar igual ao nome das vaquinhas do começo da história: com lembrança e saudade.

*Fotos de arquivo

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.



segunda-feira, 9 de abril de 2018



 FAMÍLIA DE ARTISTAS


Morávamos numa casa com um quintal muito grande. As crianças podiam se divertir sem precisar de ir para a rua. Luiz preferia que elas brincassem no fundo do quintal enquanto eu, da janela do meu atelier acompanhava o movimento lá fora, crianças, galos, galinhas, cachorros.

Havia um muro enorme de 60 metros.

Eu preparava tintas nos baldes para eles grafitarem as paredes. Era um dia de festa quando pintavam – murais cheios de sugestões infantis. 
Nos papéis coloridos desenhavam o que sentiam daquelas experiências, os passeios no parque Municipal de BH, que era também um pequeno zoológico, as viagens ao Rio para criar castelos na areia e a vida rural de uma fazenda mineira. 

Esse contato com a natureza lhes permitia expandir o seu mundo e colocá-lo no papel, nas telas e nos muros. Viajávamos de trem para a fazenda, crianças de todas as idades, alguns de colo exigindo mamadeiras. Parávamos em Jeceaba e ali tomávamos a perua do Chico Marzano e íamos até Entre Rios afrontando a poeira das estradas.

A casa de meus sogros abrigava todos, filhos e netos.

A fazenda ficava situada num lugar muito bonito, com o rio Brumado passando na várzea. Fazenda antiga, construção colonial. Éramos esperados com muita alegria. Ali as crianças se esbaldavam, andavam a cavalo, nadavam num riacho próximo, tinham mais espaço para as brincadeiras.

A família cresceu e tomou o caminho da arte.

Marília se tornou historiadora, fazendo palestras sobre Arte e História pelo mundo afora, com vários livros publicados. Atualmente é presidente do IMHA (Instituto Maria Helena Andrés).

Maurício se desenvolveu no cinema, tendo feito o roteiro do documentário recente sobre a minha trajetória. Tornou-se um ecologista reconhecido internacionalmente.

Ivana é artista plástica e estendeu seu campo criativo para o Teatro. Participa do grupo Voz e Poesia e como atriz interpretou Camille Claudel. É responsável pelas postagens de meus 2 blogs.

Eliana é professora de Yoga, tendo estudado na Índia. Desenvolveu trabalhos unindo Arte, Yoga e Ecologia. É responsável pela catalogação da minha obra.

Euler, fotógrafo e veterinário, cultiva hortas orgânicas em sua fazenda. Desenvolveu inúmeras ações culturais na cidade de Entre Rios de Minas durante sua gestão à frente do IMHA.

Artur, manifestou desde cedo a sua vocação para a música, e como flautista se apresentou inúmeras vezes nos palcos do mundo. Seu filho, Alexandre, é reconhecido internacionalmente como músico e compositor.

*Fotos de arquivo

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA












segunda-feira, 2 de abril de 2018


O EREMITA DE RISHKESH


O carro parou na estrada e descemos 300 degraus de ma escada de pedra.
O rio Ganges corria sereno, entre patamares planaltos e praias de areia branca.
Debaixo de arvores, no meio de pedras, existe um ashram escondido.
Dois homens vêm nos receber. Estão enrolados em panos acinzentados. Escolheram uma vida simples, inteiramente ligada à natureza. Crianças se acercam de nós. Uma delas, me põe um pozinho de sândalo na testa para clarear os pensamentos.

Ali viveu durante muitos anos Swami Purushottamenendgi, o eremita de Rishkesh. Meditava  dentro de uma gruta com uma lamparina de óleo junto à imagem de Shiva. Quando queria comer ia à aldeia próxima e lhe davam fogo para cozinhar. Não usava fósforo nem tirava o fogo das pedras, mas conservava sempre acesa a sua lamparina. Ate hoje, podemos vê-la acesa, como o fogo sagrado que nunca se apaga.

O velho eremita era uma espécie de S. Francisco da Índia. Conversava como os tigres e as cobras, dava comida aos peixes do rio. Sua vida estava ali, junto ao rio muito verde, escondido no meio da floresta. As lendas a seu respeito corriam de boca em boca.

“Eu estava junto dele, quando se aproximou uma cobra, tive medo mas o Swami ordenou que ela se retirasse. A cobra que preparava o bote, afastou-se de nós tranqüilamente”, isto nos informou o seu jovem discípulo.
Um dia, o velho Swami chamou os discípulos para avisá-los de que sua hora chegara. Morreu sentado em postura de lótus.

Hoje seu retrato é homenageado cm colares de flores, junto à entrada da caverna.

Um menino de 8 nos me segura as mãos e vou andando devagarinho, sem enxergar nada, só a lamparina brilhando no escuro. Aos poucos, das sombras vão surgindo formas, silhuetas.
O menino tocou um sino e cantou mantras. “Om nama shivaya”.

Os cânticos ressoaram dentro da gruta, fazendo coro com a flauta de Patrícia, a jovem brasileira que nos acompanhava.

A saída, eles nos forneceram “prasad”, um doce feito com leite e coco, muito comum na Índia. Significava uma atenção para com o visitante, uma forma de saudá-lo. Todos os lugares sagrados oferecem “prasad”.

“Namaste” – ( O Deus em mim saúda o Deus em ti) As mãos se juntaram em reverencia e a imagem do eremita nos acompanhou enquanto subíamos a escadaria. ( Diário de viagem, década de 1980)

*Fotos da internet

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA





terça-feira, 20 de março de 2018


O ÚLTIMO TOMBO EM PARIS


 Do outro lado da rua havia uma loja de flores. Já havíamos percorrido a cidade toda atrás dessa loja e sempre a mesma resposta: “Não temos sementes à venda”. A loja de flores em frente ao Sena vendia sementes de todas as qualidades. Imaginei o Retiro das Pedras cheio de flores azuis, vermelhas, amarelas, vindas da França....
 Era preciso atravessar a rua para alcançar aquela loja. Hora do rush, carros parados, sinal fechado para eles. Resolvemos atravessar a rua ali mesmo, ente os carros parados, à espera do sinal verde. O caminho era estreito, mas dava passagem para um de cada vez. Hesitei ao primeiro instante. “Será que dou conta?” ”Vem, dá tempo”. As outras foram na frente, resolvi ir também. Olhei para o outro lado da rua, naquele momento percebi que a rua era larga, teria de andar depressa. Estava com um tênis novo, o numero acima do meu. Tênis folgado não dá para andar depressa.

Fiquei aflita, não vi a hora nem por quê. Tropecei e caí. Só me lembro de ver um carro à minha frente com um para-choque enorme perto de minha cabeça, como uma guilhotina. Do outro lado do Sena Maria Antonieta fora guilhotinada um dia. A dor na testa me dizia que eu caíra de cabeça no asfalto, a dor no joelho anunciava que a perna também sofrera.
Só tive tempo de buscar meus óculos que haviam sido jogados à altura das mãos, no asfalto quente de Paris. A loja de flores estava em frente à nossa espera. Fomos para lá. Sentei-me atordoada num banco que o dono da loja me deu. Solícito, foi buscar água para eu beber. Eu estava em estado de choque. Naquela hora, percebi a solidariedade dos franceses. “Deixa por minha conta, nos disse o dono da loja, vou acessar o corpo de bombeiros.
“Minha cabeça doía e, ainda atordoada com a queda, comecei a escutar as sirenes tocando cada vez mais alto.. Os bombeiros estavam se aproximando.
Só me lembro de vários olhos azuis me atendendo e mãos me enfaixando a perna depois de derramar iodo. Lembrei-me da infância – todas as quedas eram curadas com iodo. Os bombeiros fecharam a mala azul dos primeiros socorros, guardaram a maca e me deram alta ali mesmo, na loja de flores. As sementes não foram compradas, não havia clima para isso, mas o cheiro de flores e a solidariedade daqueles franceses nunca serão esquecidos. Era o nosso último dia em Paris, viajei para o Brasil com o joelho enfaixado e um galo na testa. Comprei arnica C5 na farmácia em frente e fui tomando 3 glóbulos de hora em hora para evitar hematomas futuros.
A notícia de meu último  tombo em Paris circulou entre os amigos como um evento a mais no meu currículo. As pessoas tinham sempre um caso para contar sobre tombos. “Meu pai caiu no banheiro quando viajava e  quarenta dias depois começou a ficar esquisito, esquecendo tudo...Teve que ser operado na cabeça.
Fiquei ciente dos sintomas: dor de cabeça alucinante, vômitos. Diante daquelas referencias, eu também acordava com dor de cabeça e enjôo.
“Dor de cabeça não tem importância, só se ela for de madrugada!... e era justamente de madrugada que vinha a dor.
Fiquei dias à frente do fogo, sem sair da minha casa no Retiro das Pedras, esperando a tão temida “demência” resultante de choque na cabeça...Ainda faltava muito tempo para terminar meu estado de observação. Falaram-me até em sessenta dias... Perguntei a uma pessoa “Você está me achando esquisita?” ”Ora, você sempre foi”.
Então desisti de esperar e resolvi aceitar o convite do Artur para viajar com o grupo UAKTI pelas montanhas do Rio: Teresópolis, Nova Friburgo e depois Rio de Janeiro. Acompanhei os músicos, o grupo brilhou nas alturas, sob o maior frio do ano – trazendo instantes de grande beleza para uma platéia jovem e entusiasmada.
Nada como um dia depois do outro, com eventos sucessivos, os positivos encobrem os negativos. Fiquei boa sem tomar remédio, só substituindo as cenas no panorama da vida.

*Fotos da internet

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA





segunda-feira, 12 de março de 2018


OS "SEM CARRO"

Enquanto espero o ônibus, vou anotando num caderninho as vantagens dos “sem carro”. A espera é um treino de paciência, enquanto esperamos podemos observar melhor o que nos circunda.
Não se paga estacionamento, nem faixa-azul, não se gasta gasolina nem se paga motorista. Fica-se livre das terríveis multas, e também do sufoco do DETRAN com filas enormes e milhares de pessoas falando ao mesmo tempo. “A senhora pode passar na frente de todos, para pegar o papel.” Consegui pegar o papel mas não fiquei livre daquela multidão falando ao mesmo tempo uma avalanche de vozes, um sufoco...
Agora, sentada num banco em frente ao colégio Coração de Jesus, posso observar de perto o tráfego. Existem os sem terra, sem teto e “sem carro” – e esses últimos levam vantagens.
Os “sem carro” podem respirar melhor e observar os que passam dentro de veículos andando sempre sentados pelas ruas da cidade. Estão sempre preocupados ( inclusive em serem assaltados pelos meninos nos sinais de trânsito).
Os “sem carro” observam as coisas em volta, conhecem pessoas diferentes, vivem o agora com maior intensidade. No momento, estou sentada num banco de espera de ônibus. Em minha frente, do outro lado da calçada, existe uma casa antiga, tombada pelo patrimônio e derrubada pelo tempo. Do outro lado da rua a casa também vê os carros passando  apressados, cada um com seus problemas, enclausurados sobre quatro rodas. A casa tem uma varandinha onde os namorados se encontravam e lá dentro outras estórias aconteciam. Deve ter sido palco de muitos eventos, nascimentos, casamentos, enterros. Vou imaginando a história daquela casa em frente ao Colégio Coração de Jesus. Deve ter sido construída na década de 20 e lembra um pouco da casa da minha  avó na rua Ceará, igualzinha a esta, de frente para a rua, tinha até uma jaboticabeira no quintal. A vida naquela época era mais calma, as crianças tinham tempo para brincar, hoje só pensam em videogames, televisão, computadores e celulares. Os adultos não perdem as novelas, as crianças e as empregadas também assistem. As redes sociais nos celulares estão presentes o tempo todo. A casa em frente ao ponto de ônibus me lembra os saraus de antigamente. As famílias se reuniam para ouvir um piano, ou assistir a um teatrinho de crianças. Tios e primos batiam palmas e a glória para a criança ficava em família. Já participei de vários eventos familiares, liderados por uma tia muito criativa. Fizemos circo, cinema, dança, aulas de criatividade incentivadas em casa, pelos próprios parentes. Todos os aniversários eram festejados com números de dança, música, artes plásticas, teatro. Fazíamos bonequinhas de papel crepom, casca de ovo com a carinha pintada, muitas vezes com a cara dos parentes. Minha tendência para as artes plásticas foi descoberta num desses saraus. Tinha quinze anos de idade, subi num banco e desenhei a caricatura de todos os tios. Resultado: mandaram-me para o Rio de Janeiro, estudar com o Chambelland –até que surgiu Guignard em Belo Horizonte. E a coisa mudou. O academismo não era a minha linha, tive de desaprender para começar de novo, retomando o fio da criatividade despertada na infância. Guignard foi o mestre mágico dessa transformação.
De repente me dou conta que estou sentada num banco público em frente ao Colégio Coração de Jesus. Vivenciar com atenção o inesperado, o não programado, torna-se uma das formas mais diretas de se aprender com a vida.
O ônibus chega e me sento no banco da frente, um direito adquirido pelos maiores de 65 anos. Continuo anotando:
 O perfume chegou antes dela e sentou-se no meu lado. Viajamos em silêncio por alguns minutos. A mulher do perfume  vestia-se de forma exótica. De repente me cutucou: “Oi, dona, você tem aí um real?” Olhei para ela : “Infelizmente não posso atendê-la, estou sem troco, escolhi esse ônibus porque vou de graça, nós duas estamos no mesmo barco! Viajar na frente do ônibus vermelho é só para os velhos, gestantes e deficientes. Os jovens vão atrás.” Outro silêncio e depois a voz de minha companheira de ônibus. “Que bom a gente ser velha, não se paga ônibus!” Há vantagens em ser da Terceira Idade. Agora posso acrescentar às vantagens dos “sem carro”, também as vantagens dos aposentados: não pagam ônibus, têm desconto no cinema, preferência nas filas. Existem aulas de arte para os velhos, serenatas, viagens, horas dançantes. Entrevistei no Rio um senhor de idade, que trabalhou como engenheiro na fábrica Bangu e não tem aposentadoria nem reclama do governo. Vive de uma pequena renda, os trocados de algumas apólices, “uns trocados”, como ele diz. Mora num apartamento de quarto e sala na Rua Domingos Ferreira, bem no coração do Leblon. Chegava da praia, tostado de sol, cabelos brancos, agarrado  a uma prancha usada. Todos os  dias obedece ao mesmo programa de furar ondas, nadar para além da arrebentação – boiar olhando as nuvens e o céu azul do Rio. Observa o brilho do sol sobre as ondas e se familiariza  com os peixes em volta. Os peixes se aproximam, são seus amigos. Só come verduras e frutas, prato de verão. À noite um copo de leite e pão, é o bastante. Seu hobby é um trenzinho elétrico que vai armando todos os dias, com apitos, paradas, estações, luzes. O passado do trem vai se transformando num brinquedo para gente grande lembrar das antigas linhas de ferro brasileiras. Maria Fumaça chegando, partindo, apitando. À noite, toca piano na mesma rua onde Vinícius de Morais morou – toca num pequeno bar onde se reúnem pessoas para cantar. Todos cantam.
Existe um aprendizado para todas as faixas etárias, que não depende de livros. Ele acontece a cada instante na vida de cada um de nós. É só nos colocarmos em atitude receptiva.

*Fotos da internet

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.







segunda-feira, 5 de março de 2018


ARTE E ESPIRITUALIDADE


A partir dos anos 60 houve uma tomada de consciência de que a arte seria a grande via de abertura espiritual. Os Beatles influenciando os jovens com sua música, trouxeram para o Ocidente a filosofia do Oriente. 
A dança, num retorno às origens, reconquista o caminho do Sagrado. As artes se integram em busca da Unidade Essencial. Ela se estende à vida, como auxiliar da educação e da terapia, sobe as favelas, desce aos presídios, penetra nos asilos de velhos, chega até as fábricas e empresas.

A previsão de Jean Cassou, o grande crítico de arte europeu, de que a arte seria, na metade do século “qualquer coisa inteiramente diferente do que pode ser para o homem nas diferentes etapas de sua história”está se concretizando.

Estamos realmente assistindo a um grande trabalho de recriação do ser humano, através do seu potencial criador, a um processo de transformação que engloba o mundo todo em seu contexto, como se o Grande Artista modelasse novamente o novo Adão.

Em 1979, na Índia, entrei em contato com Jean Lebster, artista plástico e ecologista, que na ocasião ali realizava uma experiência comunitária : uma síntese das artes plásticas com a psicologia, tradições religiosas e ecologia. Anotei suas idéias e a ênfase dada ao fazer artístico como crescimento espiritual.

Jean fazia questão de mostrar a ligação do ser humano com o meio ambiente. Aliava ensinamentos teóricos de filosofia e psicologia Junguiana à prática dos afazeres diários como forma artística de viver.

“A jardinagem, dizia ele, é uma arte abençoada, que traz a psique em comunhão direta com o espaço fenomenológico e regula o metabolismo com o ritmo da Mãe Natureza. Os grandes sábios foram também grandes jardineiros”.

Os tipos de arte como a culinária e a jardinagem, dizia Jean, não podem ser considerados inferiores às outras em relação aos resultados espirituais concedidos aos seus executantes”.

Os ensinamentos de Jean Lebster, valorizando as atividades do cotidiano como formas de arte, estendem-se de forma harmoniosa ao meio ambiente.

*Fotos da internet

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


VISITA A UM ASHRAM DE GANESHPURI


Conheci Siddha Yoga em 1982, exatamente na passagem do ano. Quando parti do Brasil com destino à Índia não sabia ainda ao certo onde passar o natal. Meu bilhete estava em aberto. O avião parou em Roma, olhei a cidade através das vidraças, senti-me só e longe da família, e isso me deu uma certa tristeza. Mas, o mundo é uma só família, e aos poucos , apareceram pessoas cujas vibrações entravam em harmonia com minha.

Vinham da França com a programação de passar o Natal e Ano Novo numa comunidade perto de Bombaim. Convidaram-me a integrar o grupo e segui com eles até a aldeia de Ganeshpuri onde está localizado o ashram de Siddha Yoga. Bandeiras do mundo inteiro acenavam as boas vindas ao grupo de franceses e eu também me senti em casa diante de uma recepção tão agradável.

Levaram-me até o terceiro andar , no dormitório das mulheres. Ali se reuniam grupos vindos da Europa, América, Austrália, uma liga das nações buscando paz sob o mesmo teto.

Os mantras cantados ecoavam pelos jardins e corredores. As celebrações de Natal estenderam-se por vários dias seguidos, homenageando, de forma ecumênica, a descida de Cristo ao mundo.

Naquela época, eu desconhecia por completo a existência da linhagem dos siddhas e a sua missão de despertar nas pessoas a energia Kundalini, através do Shaktipat.
O toque de um mestre siddha acelera o processo do reconhecimento do Ser, ou o Cristo Interno de cada um de nós, e foi das mãos da jovem Gurumayi que eu pude receber essa iniciação.

Na obscuridade do imenso salão de meditação alguma coisa muito especial estava acontecendo . “Om Namah Shivaya” era repetido continuamente. Esse mantra, na antiga tradição da Índia, significa: “Eu reverencio o meu Ser Interno”. Durante esse primeiro curso intensivo, dedicamo-nos ao estudo do Shivaísmo do Kashmir, adotado pelos siddhas como filosofia não dualista.

Segundo a tradição, os sutras do Shivaísmo foram gravados pelo próprio Deus Shiva num rochedo em Kashmir, no século IX. Vasugupta, um grande mestre siddha recebeu, em sonhos, a missão de espalhar os ensinamentos ali gravados para as pessoas que estivessem em condições de aprender.

O objetivo principal do Siddha Yoga é fazer com que o discípulo experimente realmente a sua Origem Divina. Todo trabalho do ashram é realizado pelos discípulos como forma de aprendizado e crescimento. Assim, as turmas se dividem entre a cozinha, o jardim, a secretaria, os estudos e trabalhos de arte.

Os cânticos começavam de madrugada com o Guru Gita, ou louvor ao Princípio  de todos os mestres.
Uma multidão de devotos acompanhavam os textos sagrados em sânscrito. Aos poucos as ansiedades desapareciam, a mente se aquietava e o coração podia desfrutar da alegria , que é a essência dos mantras. “O coração é o centro de todos os lugares sagrados” , dizia Sri Nityananda, um dos grandes mestres de Siddha Yoga.

Os benefícios desses cânticos de louvor não se limitavam ao interior do ashram, quase completamente invadido pelos ocidentais, mas estendiam-se também para a pequena aldeia de Ganeshpuri, onde uma população pobre, proveniente do campo, vinha reverenciar a estátua de Nityananda; rodeavam o altar, trazendo flores e recebendo bênçãos. Os lugares sagrados da Índia têm sua própria energia.

Swami Muktananda dizia: “Vocês podem receber Shaktipat das árvores neste ashram, porque todas elas foram abençoadas e impregnadas com a Divina Graça”. (Trecho do meu livro “Encontro com mestres no Oriente”, editora Luz Azul, 1993)

*Fotos da internet

VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.


sábado, 10 de fevereiro de 2018


ÍNDIA, VISÃO PANORÂMICA

 Os campos estendem-se em verdes macios. Ao longo da estrada, vão desfilando bicicletas, camelos, caminhões enfeitados de desenhos e cores. “Please horn”, (por favor, buzine) está escrito por detrás dos caminhões. Os indianos apreciam a buzina e, nós ocidentais seguimos viagem debaixo de sons e cores. Paramos para ver um campo de flores amarelas, camponesas indianas, véus transparentes, lembram quadros de Renoir e de Monet. As cores dos mestres impressionistas trouxeram para os museus um pouco do colorido das manhãs de primavera.

Na Índia, a simplicidade da vida possibilita apreciar a cada instante um novo quadro.
O transporte rural é feito de forma primitiva. O camelo segue vagaroso, carregando sacos e os burrinhos enfileirados transportam cimento. Tudo respira a harmonia natural daqueles que estão ligados com a natureza.

Debaixo de tendas de piaçava, uma família de artesãos fabrica o giz para as escolas. O pó branco é misturado com água nas bacias de argila, depois é manufaturado de forma primitiva. O processo de empacotar é simples, sem requintes. Paramos o carro para conversar com os artesãos e pudemos admirar a textura do giz de diversas cores, colocado a secar dentro de esteiras.

A Índia é um exemplo de arte estendida ao cotidiano. Há graça e leveza nas mulheres que lavam as varandas e preparam as casas para a festa de Holy. Nesse dia, fecham-se as lojas e em todas as vilas e cidades o povo se pinta de pós coloridos e joga tinta em cima dos carros e das pessoas na rua. Os rapazes cantam celebrando o festival e as moças preparam as casas para as comemorações. Nos becos estreitos da vila, as casinhas coloridas parecem cenários de teatro. Ali pudemos sentir a espontaneidade da arte nas ruas e, os personagens também somos nós, vindos do Ocidente, com máquinas de retrato a tiracolo. As crianças nos rodeiam curiosas, insistentes e o povo na calçada, vem admirar os estrangeiros.

A festa de Holy se assemelha ao antigo carnaval brasileiro, quando as pessoas preparavam águas coloridas dentro de limões. Esta tradição era típica do final do século 19 e foi substituída por confetes, serpentinas e lança perfumes.

*Fotos da internet


VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA






segunda-feira, 29 de janeiro de 2018


ACIDENTE II

As coisas se repetem na vida, é bom que prestemos atenção nisto. São experiências com características semelhantes.

Foi em 1950, quando ganhei o prêmio de Isenção de Júri no Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Estava com as malas prontas para a viagem, passagem de avião na bolsa, quando papai veio me ver. Descera a rua Sta Rita bem cedo de manhã para me aconselhar a não ir de avião.
“Tive um sonho horroroso com você, um desastre. Por favor, troque a passagem não vá de avião.”

Naquele tempo, viajar de avião era considerado um risco de vida.

“Mas, papai, já comprei a passagem”
“Não faz mal, eles podem trocar ou te dar o dinheiro de volta, mas atenda o meu pedido, não vá de avião.”
“Está bem, vou providenciar uma passagem de trem”

Fui até a praça da Estação, consegui a passagem e desisti de ir de avião.

No trem acomodei-me no beliche de cima, com minhas malas aos meus pés: embaixo dormia uma senhora com uma criança de uns 5 anos.

O trem saíra de Belo Horizonte, passava pelos subúrbios, as luzes da cidade iam diminuindo aos poucos, o embalo do trem conduzia a um sono tranquilo. Estávamos no último carro e as curvas faziam as malas deslizarem na cama em ritmo de percussão. Já estava dormindo o primeiro sono, quando senti uma trepidação diferente, o corpo sacudido de todos os lados, as malas caindo.

Barulho, choque, poeira, o teto balançava, rodava, vidros se espatifando, escuridão, fumaça. Depois do choque maior, um silêncio de morte. Será que morri?
Comecei a apalpar meus braços, pernas, para ver se estava viva. Escuridão total, disparo do coração e a busca angustiante da vida que poderia escapar.
Pensei comigo mesma – “estou viva, estou sentindo dor no braço e muito peso nas pernas.

De repente o silêncio é rompido com o grito histérico de uma mulher. O grito era tão assustador que eu quase morri de susto. Mas pensei : “Se estou ouvindo é porque estou viva.
A criança embaixo chorava, a mãe se agarrava a ela chorando no escuro, por cima das malas.

Em seguida, a voz do chefe do trem orientando os acidentados:
“Não se assustem, o trem capotou, estamos com as rodas para cima, mas graças a Deus, não rolamos no abismo.
“Deus ajudou, pensei, estamos salvos”

Sair do trem foi uma cena dantesca, saímos pelas janelas, auxiliadas por um grupo de políticos que viajava no vagão da frente.
No escuro, pude escutar vozes conhecidas, o Dr Franzen de Lima, que me socorreu, e o Dr Maurício Bicalho. Fomos levadas para o vagão dos políticos e seguimos viagem aglomeradas, em cima de algumas malas. As outras ficaram no vagão acidentado, para serem procuradas mais tarde. O médico de bordo nos atendeu para os curativos. Felizmente ninguém morreu.

Ainda me foi possível chegar a tempo para a entrega de prêmios, com o braço engessado.

O sonho de papai se realizou, mas a interpretação que ele deu, não conferiu.

*Fotos da internet


VISITE MEU OUTRO BLOG “MINHA VIDA DE ARTISTA”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA